Pé na Bunda

03 de dezembro de 2012

Projeto Pé na Bunda – Parte VII

A melhor piada de Deus com relação à raça humana foi a de pedir que homens e mulheres vivessem juntos no casamento.
– Mark Twain
 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

 

019

A primeira coisa que eu arremessei longe foi aquela maldita bombinha de asma. Sempre ofegante comigo, durava horas e horas no futebol com os amigos. Tá com falta de ar? Salta a janela atrás dela.

 

020

Quando comecei a sair com ela, dizia que não tinha time. Bonitinha. Torcia para o Brasil. Eu, que sou louco pelo Corinthians não conseguia pensar em outro time, nem mesmo na seleção. Mas mulher é mulher, né? Bicho estranho. Sem time. Até que levei ela no Pacaembu. Ficou lá olhando pra todos os lugares menos para o campo. Primeiro fixou na coreografia da Gaviões na arquibancada. Depois nos quero-queros perto da grande área. Eu, claro, não dava a mínima. Estava mais preocupado com o meio de campo do Timão que teimava em ficar passando a bola de um lado pro outro. Até que o Cruzeiro inventou um gol de falta. Fiquei desolado. O estádio inteiro ficou quieto. Faltavam só três rodadas para o final do Brasileirão e aqueles pontos eram fundamentais. Olhei pro lado com a minha cara de cachorro molhado e lá estava ela, vibrando com o gol. Disse que tinha sido um gol lindo, que nunca tinha visto um gol ao vivo. E mais. Disse que o uniforme azul era o máximo. O máximo, eu repito. Não acreditei no que ouvia, nem mineira ela era. Não fazia o menor sentido. Não sei se foi o ambiente do estádio, mas o meu sangue foi fervendo na mesma hora. Desci o cacete nela. Uns dois ou três PMs tiveram que me segurar e me levar pra delegacia de camburão. Estou respondendo por aquele soco até hoje. O pior é que perdi a virada do Corinthians. Terminou dois a um. Romarinho entrou infernal no segundo tempo. Arrebentou. Um gol de falta e um de sem pulo, no meio da grande área.

 

021

Fiquei meses organizando meus livros. A divisão de qualquer biblioteca é assunto sério. Assim como os jardins, a ordem escolhida pode ser à francesa ou à inglesa. Mais cartesiana ou mais natural. As minhas estantes estavam mais para os jardins ingleses. Uma desordem ordenada. Havia uma área reservada aos livros autografados por meus amigos, outra para literatura inglesa do século vinte, um espaço para livros em suas línguas originais, livros sobre livros, guias de viagem, de ficção científica, os romances mais açucarados. Havia um espaço para a nostalgia de infância, os meus favoritos em dias de chuva e tristeza e até para livros que ganhei de presente e não cheguei nem a abrir. Se alguém me pedisse para encontrar algum dos meu livros era muito fácil, o caos do jardim inglês parecia indecifrável para o observador menos atento, mas tinha uma lógica que me deixava muito satisfeito. Até que voltei de uma viagem de trabalho e a minha estante se encontrava irreconhecível. Os livros todos em ordem alfabética. Ordem al-fa-bé-ti-ca! Pior só se a divisão fosse feita por cor. Quando vi Chaucer e Chatwin lado a lado, Shakespeare ombreando J.D. Salinger, Machado de Assis e Douglas Adams capa com capa, coloquei um ponto final em nosso relacionamento. The end, my dear.

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? 😉

Tobias Silva
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