Pé na Bunda

22 de janeiro de 2013

Projeto Pé na Bunda – Parte X

Eu adoro estar casada. É tão bom ter alguém para encher o saco até que a morte nos separe.

– Rita Rudner

 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

028

Ela não consegue olhar nos olhos. No começo é até simpático, parece coisa de menina tímida. Aí o tempo passa e começa a ficar bizarro. A gente troca juras de amor e ela não cruza o olhar comigo uma vez. Sei lá. Escondendo o que, minha pequena? No feng shui do relacionamento amoroso é preciso alinhar as janelas da alma. A gota d’água foi mesmo no tim-tim. A regra é clara: quando se vai brindar com uma taça de vinho é necessário que as partes olhem no olho. In vino veritas, ora bolas.

 

029

Seria capaz de o perdoar se roncasse. Se soasse como um um bicho enjaulado, enquanto dorme ao meu lado. Seria capaz de o perdoar se o seu ronco fosse tão retumbante, mas tão retumbante, que fizesse a cama tremer assim como se passasse um trem de carga ao lado de nosso quarto. Como se pudesse medir um tremor de baixa a média intensidade na escala Richter em nosso leito, em nosso ninho de amor. Seria capaz de o perdoar se falasse besteiras enquanto dorme: se narrasse os números primos escolhidos para apostar loteria no dia seguinte. Se cantasse o nome dos jogadores do Corinthians, um a um. E não os jogadores do elenco atual, mas um time distante, o de1990, por exemplo, o do primeiro Brasileirão. Seria capaz de perdoar um homem que chora ao dormir. Como se voltasse à infância na mais profunda das horas, como se sofresse as dores do mundo, aquelas que resiste em sentir quando está acordado. Abraçaria mais forte este homem choroso, limparia suas lágrimas. Veja bem. Seria até mesmo capaz de o perdoar se dissesse o nome de outra mulher ao dormir. Vanessa, Renata, Mariângela. Quem sabe se não são suas professoras do primário, suas tias-avós ou clientes do banco onde trabalha? Só não consegui perdoar a noite em que começou a balbuciar algumas frases desconexas em alemão – ou em alguma língua estrangeira similar ao alemão. Sabe-se lá que tipo de segredos guarda um homem que esconde o conhecimento do idioma de Wagner da própria mulher. Você entende o que é isso?

 

030

Ela nunca tinha assistido a nenhum episódio de Star Wars – ou Guerra nas Estrelas, se você é um pouquinho mais velho, como eu. Aí resolvi “educar” a moça. Desencanei de seguir a ordem sugerida por George Lucas (de I a VI) e resolvi optar pela ordem cronológica, a do lançamento nos cinemas mesmo. Parecia a coisa a se fazer. Luke, Leia e Han antes de Padme e Anakin. O mesmo prazer que eu tive com os três primeiros episódios e o mesmo desprazer com os três últimos. Teríamos passado pela mesmas emoções e pela mesma tragédia. Isso nos uniria como aquelas pessoas que sobrevivem a um naufrágio ou acidente aéreo. Deixei a minha coleção de Blu-rays na casa dela em um feriado prolongado que teria que trabalhar. No domingo à noite fui até a casa dela atrás de uma pizza e das suas impressões. Foi uma catástrofe. Ela achou Jar Jar Binks engraçadinho. With her anymore I am not. Herh herh herh.

 

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? ;)

Tobias Silva
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