Pé na Bunda, Textos

22 de outubro de 2012

Projeto Pé na Bunda

Um grande nariz é quase impossível de casar.

– Oscar Wilde

O Projeto Pé na Bunda.

Relações vão do olho no olho ao pé na bunda. Dizem que é inevitável. Neste espaço, pretendo reunir centenas de depoimentos sobre desistências. Tanto do ponto de vista do pé quanto o da bunda. Sei que os pés são em geral mais falantes, mas até mesmo a bunda tem vontade de falar da mais amarga das horas e tantar descobrir o motivo final. Os testemunhais serão apresentados de três em três. Uma trinca de fracassos para o seu deleite – pé na bunda dos outros é refresco.

 

A originalidade.

Confissão. Este projeto não é de todo original. Em 1956, o escritor espanhol Max Aub produziu um livro que influenciou o Projeto Pé na Bunda no formato e na tragédia. O livro se chama Crimes Exemplares e merece ser lido. Aí você poderá decidir qual deles é mais violento: o dele por narrar ataques a facas e a tiros ou este, por arrebentar corações.

 

Os depoimentos.

001

Éramos um daqueles casais silenciosos. Com certeza você conhece bem o tipo. Já olhou a mesa do lado e viu o homem lendo o cardápio como se fosse um jornal e a mulher olhando para todos os lados, mexendo a cabeça assim como faz um passarinho. Cruzam olhares de vez em quando e se envergonham cada vez que um olho atinge o outro em linha reta. Depois que o prato é pedido, o silêncio é ainda maior. Se é que isso é possível – podemos graduar silêncios assim como fazemos com os terremotos? Alguns casais colocam o braço sobre a mesa e ficam se tocando, roçando os dedos, tentando se comunicar de alguma forma. Numa destas noites de Charlie Chaplin, resolvi quebrar o silêncio. Terminei com ela só para ter o que falar durante o jantar.

 

002

Sempre tive medo de completar quarenta anos. Não porque estivesse envelhecendo e tivesse mais e mais pés de galinha no rosto e celulite na bunda. Eu tinha mesmo é um grande pavor: ele ia me trocar por duas de vinte. Certeza. Então, na manhã do meu aniversário, me antecipei. Era um sábado e ele estava lá, babando no travesseiro, provavelmente imaginando o corpo sarado das suas futuras esposas. Aposto que ele arranjaria pelo menos uma loira. Se bobear, as duas seriam loiras. Tenho certeza de que ele não se conforma com a minha morenice. Pra ele mulher é loira, carro é preto e cueca é branca. Simples assim. Então, fui até o armário e coloquei minhas roupas em duas malas grandes. Deixei um bilhete no criado-mudo – você é um puta de um imaturo e coisa e tal – e fui-me. Antes de sair joguei a cafeteira no chão. Quero ver aquelas duas peruas aguadas enfrentando o mau-humor dele sem um café fresquinho pela manhã.

 

003

Curry amanhecido. Kiwi com mel. Estrogonofe de frango. Melão com pastrami. Motor a diesel. Cola de bastão. Queijo coalho. Pêlo de gato molhado. Biblioteca pública. Yakult vencido. Bombinha de asma com ovo. Fiz uma lista de mais de cinqüenta cheiros que vieram da boca dele nos últimos meses. Se quiser posso mandar pra você. Se for ajudar com o seu projeto…

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

Tobias Silva
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