Textos

11 de agosto de 2015

Ilustração:
Thiago Thomé

Igualdade dos Os

Uma conversa recorrente nos dias atuais, entre “letras” da vida:

O: Somos iguais!

X: Sim.

O: Mas somos diferentes?

X: Sim, é isso que estou dizendo.

O: Mas se somos iguais, por que você quer ser diferente?

X: Não é que quero ser. Eu sou diferente! E justamente por ser diferente, sou tratado de forma diferente que você.

O: Não tem dessa. Somos todos iguais. Iguais. Somos todos humanos.

X: Sim. Claro, somos iguais — e quero que sejamos. Mas ainda assim sou tratado diferente.

O: Mas você não disse que era diferente?

X: Sim, mas não quero ser tratado de forma ruim por conta disso.

O: Ah, não é tão ruim, vai. Isso é coisa de gente ignorante. Olha só, olha onde você está. A vida que tem. Seus amigos — incluindo eu. Pô, você está bem, você é “diferente” das pessoas que são diferentes como você.

X: E ainda assim sou tratado de forma “diferente”, como todas elas. Claro que você não percebe pois você não é visto como diferente. Pelas pessoas ao meu redor, pelos olhares que recebo. Pelas ofensas. Pelos “elogios”. Sério, é muito chato isso! Sempre.

O: Ah, deixa de vitimismo! Nunca vi ofensa. E elogio agora é ruim? Imagina! Que papo é esse… Deixa disso…

X: É exatamente “disso” que estou falando…

O: Do quê, criatura?

X: Nem você consegue perceber…

O: O quê? Não vejo nenhum problema… Somos iguais, todos seres humanos.

X: Sim… você que não percebe que estou falando de igualdade.. e não de “Igualidades“.

O: Igualidades? Oi?

 

***

 

Ok, daqui eu assumo. Definição de igualidades (segundo dicionário deste autor, um neologismo apropriado para esse texto): s.f. noção etérea de igualdade de todos que, confrontada com a realidade de desigualdade e discriminação para com grupos e pessoas (diferentes, e discriminadas em sua diferença), nega tal diferença em prol da mesma noção etérea de igualdade que continua tudo na mesma. Sempre. Todas as letras têm o mesmo “valor”.

Se igualdade está para modernidade, a igualidade está para modernagogia. Se a igualdade é um princípio essencial para valorização e respeito das diferenças entre os indivíduos, e que, por conta dessas diferença, não haja base de discriminação negativa ou desigualdade; a igualidade está para o nivelamento cimentador de qualquer possibilidade de diferença. Ou seja, passa-se um cimento de inverdades sobre qualquer valorização da diferença, considerando apenas uma visão de mundo — a do dono do jogo do alfabeto, do representante da “letra que dá o tom em tudo”. É um “alfabeto” inteiro cantado e controlado pela visão de mundo de uma só letra que, não sendo colocada nunca em posição de dominada ou oprimida pela discriminação entre as letras, acredita que canta igualdade acimentando qualquer diferença.

Para compreender melhor esse conceito de igualidades, proponho substituir X por mulheres, negr@s, gays, lésbicas, trans, indígenas, deficientes, imigrantes, e outros grupos com baixo nível de representação na sociedade (que é proporcional a alto nível de discriminação, de preconceito). E não se enganem: apesar de haver certa concentração de direção entre as letras, a “letra O” não está só no mundo conservador das “letras velhas”, aquelas que ficam à direita da enciclopédia. Não. Ela está em todas as páginas, à direita, à esquerda, em cima e embaixo, ditando regras, silenciando, tonalizando As onde haveria “Xs”, “AsS ou “EsS.

O problema central do jogo de igualidades é simetria, ou o que podemos entender por a falta dela. É o princípio equivocado de que a ideia etérea de igualdade vale por si só, e a realidade já está dada com todas as “letras do alfabeto” nas mesmas posições. A falsa simetria cria a ideia de que todas as letras ali têm mesmo valor, não importando a ordem dos fatores. Porém, tem importância, sim. As letras não estão dispostas da mesma forma. Os “Os” assumem um jogo de poder maior entre as palavras, ditando formas, jeitos e sentidos a elas. Esse sentido equivocado de igualdade reproduz continuamente o silenciamento dos “Xs”, o silenciamento dos diferentes, o sliêncio dos inocentes. Uma percepção equivocada e imposta de que, se está tudo bem entre os “Os”, tudo vai bem no resto do alfabeto e, se existe “igualdade” entre os “Os”, não há o que clamar sobre diferença.

No entanto, são esses “Xs” que sonham um dia com uma igualdade exercida plenamente para tod@s. Com suas diferenças, sem desigualdades. Sem igualidades para nenhuma das “letras” da sociedade.

Tulio Custódio
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