Textos

14 de maio de 2013

Acorda, vida

Acordei antes do despertador tocar, coisa rara de acontecer. Levantei antes do sol chegar e raiar sua energia pelos tetos, paredes e chão, esquentando o dia como um vulcão em erupção. Abri os olhos com mais sede de alegria do que de preguiça, coisa rara também. A luz da manhã veio tímida brotando e, em segundos, lá estava ela inundando o meu quarto de brilho cintilante por bem mais que um instante. Eu vi luz suficiente pra fazer brilhar toda essa gente num raio infinito. Da janela, o céu azul é tão bonito. Não tem nuvem no caminho, não tem caminho sozinho, tem só coração quentinho. Tem vento que venta e sopra sentimento. E eu me arrepio por um momento. Mas não sinto frio. O que eu sinto é um cheiro de vida que vem de dentro do armário: tem vida pendurada nos cabides, nas pilhas de roupas e no fundo das gavetas. Tem vida esquecida em todo lugar. Remexo em tudo e faço a vida acordar. Anda, levanta, quero ver você acontecer. Ouço um barulhinho bom que me dá vontade de dançar. Ouço um som, não perco o tom. Já não sei se é o barulho das árvores a balançar, se são essas folhas secas a chacoalhar. Não sei se é barulho de onda do mar, se é canto de Iemanjá ou se é só boa música a tocar. Danço com as borboletas que batem as asas dentro da minha barriga. Asas coloridas pela mesma vida. Meu corpo, meus cabelos, minhas unhas e meus pelos, tudo tem brilho de estrela, furta-cor como calda de sereia. Meus pés, minhas mãos, não tem mais contramão, são só transformação e coração. Hoje eu vou me vestir de graça, abrir as minhas asas e voar bem alto nesse eclipse lunar. Ver a lua, a Terra e o sol se encontrar. Todos tão reis de si, reis e rainha de mim. Estamos todos alinhados. Eu e a vida lado a lado. Sinto que hoje é um bom dia pra ser feliz. Feliz como eu sempre quis.

 

* Imagem: The Goldfish Window, por Frederik Childe Hassam.

Veronica Fantoni
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