Textos

31 de julho de 2013

Descomeço

Ele já estava sentado quando ela chegou. Não que ela estivesse mais uma vez atrasada, dessa vez foi ele quem chegou cedo demais.

Ele escolheu a mesa de sempre, no canto direito, perto da janela. Mas só porque ela gostava de ficar olhando o movimento da rua enquanto comia-bebia-falava. Ele achava que a rua a distraía. Talvez fosse.

Ele vestia uma camisa azul amarrotada, aquela que ela sempre elogiava porque combinava com o colorido dele, ela dizia, mesmo quando amarrotada ou cheirando a cigarro. Ela vestia um vestido vermelho, aquele que ele sempre elogiava porque deixava as coxas à mostra, ele dizia, mesmo que aquelas coxas chamassem também a atenção de outros homens. Na verdade, o vestido vermelho era coral, mas ele não sabia.

Ela sentou-se. Ele sinalizou para o garçom. Pediram duas águas.

“A dela é com gás”, ele frizou.

Ela riu. Ele se irritou.

“Filha da puta”, ele disse.

Ela ficou calada. Pensou na mãe, tão carola, levando a vida em nome de Deus naquela cidadezinha do interior que ele, homem tão ocupado com as artes, nunca pode conhecer.

“Ela não. A puta fui eu.”

Calaram-se os dois. Ele tinha vontade de atirar no chão todo aquele vidro metido à cristal daquela lanchonete metida à bistrô parisiense. Ela tinha vontade de acabar logo com aquilo e partir.

“Por que? Eu só queria saber o porquê.”
“Olha, vou te contar, não há um porquê pra tudo. Às vezes as coisas apenas são assim.”
“Assim como? Não debocha, você quer que eu perca a cabeça?”, disse ele, já elevando o tom da voz e apertando o guardanapo com a mão.
“Se eu te disser que foi por amor, você acredita? Amor, sabe? Aquilo o que eu tentei te ensinar, mas parece que você nunca aprendeu?”
“Ah, peraí. É isso o que você quer? Quer discutir, fazer cena? Vai dizer que eu nunca gostei de você? Pior, vai dizer que eu não sei gostar de alguém?”
“Não, o que eu quero são as minhas chaves.”
“Eu nunca te vi tão fria”, disse ele, pondo sobre a mesa o molho de chaves naquele chaveiro velho, souvenir de uma viagem qualquer.

Ela pôs a mão sobre a mão dele. E desculpou-se com o olhar. Pelo tempo de um suspiro, lamentou que as coisas estivessem terminando assim.

“O que você viu nele, me fala?”
“Para com isso, eu não tenho nada pra falar, não piora as coisas.”
“Anda, me diz. O papo dele é melhor que o meu? Ele é mais engraçado do que eu? Ele te come melhor que eu? ”

Ela balançava os pés sob a mesa, o que balançava também a mesa sem calço.

“Não importa, esquece ele.”
“Não, eu não posso esquecer. Eu tô perdendo você pra ele, eu preciso saber.”
“Eu vi o futuro. Foi isso o que eu vi.”, ela respondeu, tentando engolir o choro.

Ela guardou as chaves na bolsa e esboçou se levantar. Ele a segurou pelo braço.

“Fica. Fica pro almoço, pro café, pra uma vida.”

Que coisa bonita é um homem que chora, ela pensou, também chorando. Mas era tarde demais. Aquele tempo passou.

“Não dá mais. Eu preciso ir. Acabou.”

Ele pediu a conta das duas águas. Ela só olhava pro prato vazio, já não podia mais olhá-lo nos olhos.

Ela tentou tirar uma nota da carteira. Ele reprovou.

“Você quer me deixar mais puto?”

Ela o olhava em silêncio, se perguntando onde foi parar aquele amor de antigamente. Pensou em desistir, em voltar no tempo, em fazer tudo diferente – ou melhor, fazer com que ele fizesse tudo diferente. Mas nada mais era possível. O amor estancou.

“Você nunca vai me perdoar?”, ela perguntou.
“Acho que não.”

Ela levantou-se. Ele levantou-se. Arriscaram um último abraço. Ele pôs uma das mãos na cintura dela e a outra na cabeça. Desceu os dedos pelos fios de cabelo impecavelmente escovados. Ela encaixou a cabeça no pescoço dele e respirou fundo, na certeza de ser aquela a última vez que o cheiro dele entrava pelas suas narinas e pelo seu corpo.

“Eu te amo, Isabel.”
“Eu amo outra pessoa, Daniel. Outra pessoa.”

 

* Imagem: The English Muse.

Veronica Fantoni
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