O Inventário das Coisas Ausentes

Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.”

Eu havia lido um trecho de outra obra da Carola Saavedra no ano passado e fui tocada. Seu nome então ficou guardado na minha cabeça, com a certeza de que em algum outro momento, a literatura dela me chegaria às mãos. E foi assim que quando vi O Inventário das Coisas Ausentes em posição de destaque na livraria, não tive dúvida: seria esse o meu primeiro livro da escritora.

Porque era feriado, acabei lendo o romance inteiro em uma tarde/noite — talvez rápido demais. Talvez fosse preciso mais tempo para uma adequada digestão do texto. Mas como interromper a leitura quando se está totalmente envolvida por ela? O Inventário das Coisas Ausentes já me seduziu pelos questionamentos que surgiram com o título: não é o inventário o que fica depois que alguém se vai? Mas como inventariar o ausente? Como listar o que não há? E quando o que não existe ocupa tanto espaço quanto o que há?

O romance de Carola Saavedra é história: não uma, mas muitas delas. Gosto da forma como a autora escreve. Muito. Gosto dos diálogos transcritos em texto corrido como se pudéssemos testemunhar cada conversa, em quaisquer passagens das muitas narrativas que entre si dialogam. Gosto das interrupções entre uma parte e outra, gosto das anotações, gosto dos retornos no tempo e de tudo que nos situa (ou não) no caminho da compreensão. Gosto da ficção na ficção. Gosto da metalinguagem. Gosto da descrição rica do perfil dos personagens e da história dentro da história, coisa que não me parece um recurso fácil em literatura e que me desperta uma vontade voraz de esmiuçar muito em breve outros romances dela.

Gosto do ritmo até certo ponto, até o momento em que eu achei que havia me perdido, mas então percebi: O Inventário das Coisas Ausentes é um livro de muitas possibilidades, todas ali, ao alcance dos olhos. Um livro sobre pessoas, sobre escritos, sobre pessoas e seus escritos. Não me parece que seja primordialmente uma história de amor, mas é também sobre (a ausência d)ele. E se tempo, lugar e circunstâncias determinam a nossa história e o que a gente se torna, o lugar político nos textos entrelaçados desse romance diz muito sobre o rumo de seus personagens até o fim do livro, ou até o não-fim. Terminada a leitura, há de abrir-se uma porta ou de acender-se um ponto de interrogação.

Sendo absolutamente emocional (como falar do outro sem falar de si?) e, sem me propor a lançar qualquer olhar teórico sobre a obra dessa (grande) escritora — que já foi premiada pela APCA por Flores Azuis (Melhor Romance), levou o Prêmio Rachel de Queiroz por Paisagem com Dromedário (Jovem Autor) e já foi indicada ao Prêmio Jabuti — o que eu proponho é que você aí faça o mesmo: deixe-se tocar pela leitura e embarque também na viagem da memória dentro da história dentro da memória dentro da história dos personagens dessa trama de ausência-presença de Carola Saavedra.

Veronica Fantoni
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