Textos

10 de abril de 2014

Ilustração:
Renata Miwa

Outras estrelas

Era quinta-feira. O chiar da chaleira parecia pedir silêncio ao silêncio que já se ouvia ao redor. Ela fazia chiiiiiiiiiiiiii. A caneca amarela era dela e aguardava sobre a pia de mármore fria o momento da infusão. Era chá de hortelã e ela vestia um suéter branco de lã. E meias, ela vestia meias vermelhas, mas talvez fossem grenás. E talvez o chá fosse de cidreira, mas tanto faz. Ela vestia suéter e meias e deixava aquelas pernas bem-feitas de fora, que não eram longas, mas também não eram curtas, e eram firmes, mas não muito. E enquanto a água fervia, ela sorria e dançava devagar aquela música do Neil Young que tocava bem baixinho apenas na cabeça dela e fazia dos seus fios de cabelo bailarinas evoluindo leve e delicadamente na nuca, entrando pela gola frouxa do suéter que se abria sobre o ombro esquerdo, onde as sardas se espalhavam em um milhão, como uma constelação vista a olho nu. Sem perceber, ela fechava os olhos castanhos e cantarolava uns versos sobre um amor na lua cheia, e seu movimento suave dos braços fazia do quadril então a mostra um convite. E diante daquele chamado, ele se perguntava se, em alguma outra madrugada de poucos graus que se fazia naquela São Paulo fria, seria possível ter visão mais bonita do que aquela mulher dançando com seus olhos castanhos fechados no quase escuro da cozinha com uma caneca amarela de chá na mão. O vapor de água se dissipava e no ar ficava um vapor de boca ao encontro da nuca. O gosto de língua tomava o lugar do gosto de chá na pele pintada de outras estrelas. A mão escorria por costas e curvas sem paradeiro final, afinal. Sem o suéter branco de lã, o cheiro de hortelã se espalhava pela cozinha. Mas talvez o cheiro fosse de cidreira. E talvez já fosse sexta-feira.

 

* Ilustração: Renata Miwa para a Confeitaria.

Veronica Fantoni
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