Clara

De repente, eu quis ir embora. Clara, no chuveiro, me perguntou: “O que você disse?”. Resmunguei para mim mesmo numa voz quase ausente: “Eu vou embora daqui.” E parti. Desde pequena, Clara é objetiva e intensa. Ou ama muito, ou não ama nada. Defino como alguém que come não o pão, mas a fome. Fomos vizinhos, estudamos na mesma escola, trocamos nosso primeiro beijo. E…( . . . )

Sinestesia | Cegueira

“… dizem que o amor é cego… eu não acho… ele faz a gente enxergar muito mais… voltamos a ver coisas que já nem imaginávamos que existiam…” Os hábitos, os mesmos. Acordava todos os dias com a mão direita a procurar os óculos em cima do criado mudo. Tateava o escuro, acertava o frio e o levava ao rosto. A face ainda quente, de quem…( . . . )

Documento sem título

O que sinto por você não tem nome. “É isso”, resume minha boca pra cobrir silêncio. Anos sem palavra, beijo, cantar de amor. Agora, são dois num abraço e a rua coberta de maresia. Que bonita essa cicatriz que corta seu rosto e que bonito é mesmo esse seu rosto vazio. Gosto dos novos óculos, o cabelo nesse corte, legal a camisa de banda, essas…( . . . )

ÍNDICE

Clara

De repente, eu quis ir embora. Clara, no chuveiro, me perguntou: “O que você disse?”. Resmunguei para mim mesmo numa voz quase ausente: “Eu vou embora daqui.” E parti. Desde pequena, Clara é objetiva e intensa. Ou ama muito, ou não ama nada. Defino como alguém que come não o pão, mas a fome. Fomos vizinhos, estudamos na mesma escola, trocamos nosso primeiro beijo. E…( . . . )

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Sinestesia | Cegueira

“… dizem que o amor é cego… eu não acho… ele faz a gente enxergar muito mais… voltamos a ver coisas que já nem imaginávamos que existiam…” Os hábitos, os mesmos. Acordava todos os dias com a mão direita a procurar os óculos em cima do criado mudo. Tateava o escuro, acertava o frio e o levava ao rosto. A face ainda quente, de quem…( . . . )

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A Mudança

A Mudança

Quando comecei, eu era apenas eu. Enfeites, livros, taças, quadros, roupas, tudo sussurrava vida e eu já não cabia mais em mim. Fui para além das formas, atravessei paredes e flutuei pela grama do jardim. Naveguei, remei, revirei, transbordei. Quando percebi, era novamente eu, pronta para começar tudo outra vez.   * Imagem: Foto montagem com imagem de fundo de Nicholas Bell.

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Documento sem título

O que sinto por você não tem nome. “É isso”, resume minha boca pra cobrir silêncio. Anos sem palavra, beijo, cantar de amor. Agora, são dois num abraço e a rua coberta de maresia. Que bonita essa cicatriz que corta seu rosto e que bonito é mesmo esse seu rosto vazio. Gosto dos novos óculos, o cabelo nesse corte, legal a camisa de banda, essas…( . . . )

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Acorda, vida.

Acorda, vida.

Acordei antes do despertador tocar, coisa rara de acontecer. Levantei antes do sol chegar e raiar sua energia pelos tetos, paredes e chão, esquentando o dia como um vulcão em erupção. Abri os olhos com mais sede de alegria do que de preguiça, coisa rara também. A luz da manhã veio tímida brotando e, em segundos, lá estava ela inundando o meu quarto de brilho…( . . . )

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Tava escondido na varanda porque eu te amo

Tava escondido na varanda porque eu te amo. Eu não suportaria te encarar de frente, eu não saberia onde posicionar os braços enquanto falasse com você, eu não suportaria a grandiosidade da sua presença acentuando a mediocridade da minha. Tava escondido na varanda porque te guardo em segredo. Porque ali eu teria o pretexto da paisagem, ou de ter ouvido um barulho estranho na rua….( . . . )

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Crossover

Num instante muito curto ela sentiu amor e dor. Numa intensidade tão absurda que desmaiou. Acordou no hospital, imobilizada e irada. Diagnóstico: trinca no cóccix. Devolveu as flores com todos os cabos quebrados, dizendo que gostaria de fazer isso com o pescoço dele. Não sem todos os palavrões que cabiam no verso do cartão. Ele ligou do quarto ao lado dizendo que já estava tão…( . . . )

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O grande momento

O grande momento

Era um dia muito quente aquele 12 de dezembro. Estávamos bastante desgastados emocionalmente e cansados do trabalho. Pegamos o metrô e ainda precisamos de um táxi para chegar ao abrigo. Quando paramos em frente ao endereço informado pela assistente social me senti um pouco mais recarregado. A casa não era sombria como a outra. Era espaçosa, bem cuidada, cheia de vida. E quantas vidas. A…( . . . )

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Os fins justicam os meios

Lembro que a primeira surpresa que tive ao entrar e começar a trabalhar em uma redação de jornal, em 2008, foi o total controle burro exercido pelos chefes. Tive poucos trabalhos em minha vida, acho que passei mais tempo estudando que trabalhando, mas o que vi nas duas redações que trabalhei (Folha e R7) não dá pra comparar com qualquer outro trabalho meu anterior. Chefe…( . . . )

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Quadrilha

Quadrilha

Pensando naquele poema do Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.” A gente morre de medo de ser João, que é um coitado de um forever alone. Ser Raimundo, já tem lá suas vantagens. Tem a Teresa ali, que vive enchendo nossa bola e dá pra ligar de madrugada, quando a balada…( . . . )

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Sinestesia | Leveza

(Sugestão de trilha sonora para o texto aqui.) Decidiu guardá-lo na gaveta. Andava agitado. Hora branco-transparente. Hora preto-luto. Quietava lá dentro, no escuro. No escuro não tinha cor. Não existia. Murchinho. Um dia, entre uma música e outra que tocava lá fora, escutou. Não era azul, nem amarelo, fingia de verde, mas lembrava mais a cor do mar. Ficava lá dentro, no escuro, imaginando: “qual a…( . . . )

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Mas e se?

Mas e se?

E daí vem o mundo e muda tudo e te deixa muda. Deixa tudo de cabeça pra baixo, de pernas pro ar, de cintura quebrada e te tira do eixo. E o que era bom fica ruim e o que era ruim de repente nem é tão ruim assim quanto você imaginava. E o que era bom não necessariamente era verdade, mas era bom. E…( . . . )

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